Entrevista com Vitor Péon

Publicada no FANZINE em 1974


Entrevista com Vitor Péon


O texto de introdução e entrevista abaixo transcritos foram publicados num fanzine, curiosamente chamado FANZINE, datado de Outubro de 1974. Esta publicação foi lançada durante a impropriamente intitulada (pois já tinha havido uma anterior) '1ª Exposição de Banda Desenhada Portuguesa' na Parceria A. M. Pereira, na muito lisboeta rua Augusta.

Aqui fica, assim, um tributo saudoso a este artista já falecido.

 

Nasceu em Luanda, a 3 de Abril de 1923. Aos dez anos de idade. na companhia dos pais, vem para a metrópole, onde a família se fixa, em Alcântara, Lisboa. Frequenta a Escola Marquês de Pombal (Industrial), em Alcântara. Nessa escola tem por mestre de desenho à vista José Maria Campas.

Abandona os estudos ao fim de três anos e, aos catorze anos, começa a trabalhar nas artes gráficas - fotogravura e fotografia. Sai da firma aos dezassete anos.

Inicia-se no banda desenhada. Durante anos trabalha para o 'Mosquito', 'Aventuras', 'Diabrete e 'Mundo de Aventuras'. Ilustra livros e capas de publicações várias e faz pintura.

Especializa-se em Londres, em cinema - desenho animado, trucagem e imagem real. Regressa a Portugal e monta uma produtora de cinema publicitário, concebendo o executando, com a colaboração da família, dezasseis filmes de publicidade. Vive presentemente em França*.

*Na altura em que foi realizado este trabalho.

 

---------- ENTREVISTA ---------

 

 

FANZINE: Queria que nos falasses, para começar, dos tempos talvez um bocado difíceis, direi mesmo duros, do Mosquito e do Diabrete.

 

PÉON: Nos tempos do Mosquito e do Diabrete, digamos que o tempo mais duro foi o do Diabrete, porque no Mosquito, mesmo quando eu comecei, pagavam melhor que no Diabrete. E todos nós sabemos que era nessa altura extremamente difícil colocar histórias em Portugal, pois era uma arte nova. Nós éramos os pioneiros e andávamos a nadar, não fazendo ideia nenhuma de como a coisa funcionava lá fora; como é que se produzia uma banda desenhada e, inclusive, como é que se escrevia uma banda desenhada. Fazíamos a banda desenhada quase por instinto. Sem dúvida nenhuma que, decorridos estes anos, faço a banda desenhada dentro das bases técnicas em que ela deve ser feita, com princípio, meio e fim, com uma estrutura que nunca, nessa altura, nós pensávamos que seria assim, porque não havia a promulgação e a divulgação que a banda desenhada tem sofrido, digamos, nos últimos cinco anos.

Eram tempos duros os do Diabrete e foram tempos de pioneirismo total os do Mosquito.

 

F.: Dá-me a sensação que nessa altura se estava a construir uma banda desenhada portuguesa ou, pelo menos, a criar desenhadores e que depois isso degenerou.

 

P.: Eu tenho as minhas dúvidas. Não se estava a construir uma banda desenhada portuguesa. Eu penso que estávamos apenas a fazer trabalhos que gostávamos de fazer e, só muito mais tarde nós nos apercebemos da realidade de uma banda desenhada.

 

F.: Com que idade começou a trabalhar em desenho?

 

P.: O meu primeiro trabalho foi em desenho do Red Ryder no 'Aventuras' do Mosquito, que era a ampliação de um quadradinho. Devia ter uns dezanove anos quando comecei a trabalhar.

 

F.: Gostava que nos falasses agora um pouco dos desenhadores portugueses que foram teus colegas e amigos como, por exemplo, o José Batista, o Garcês, o José Ruy, etc.

 

P.: O Batista é um rapaz que só fez banda desenhada muito depois de eu me ter ido embora. Só vi umas páginas do Batista, umas coisas que ele me mostrou, um trabalho que estava a fazer para Inglaterra. Portanto, eu posso apenas dizer que é um rapaz de talento e que tem um longo futuro à frente dele, até porque já fez aquilo que todos os que querem fazer banda desenhada devem fazer,que é, dirigir-se a editores estrangeiros.

Sobre o José Ruy... Conheci o José Ruy... Conheço o José Ruy. Tivemos muito poucas relações, porque nunca trabalhámos juntos. Conheço,a obra de José Ruy em banda desenhada e acho que se perdeu um desenhador de B. D. por ele nunca mais ter feito nada por ter enveredado por outros caminhos, que não as artes gráficas.

O Jaime Cortez... O problema das histórias que ele fez no começo, antes da partida para o Brasil, se não estou em erro, para casa de um tio que lhe facilitou a ida...

A minha opinião sobre o Cortez é uma opinião boa, como não podia deixar de ser. É boa sobre vários aspectos, porque o Cortez é um homem que, sem dúvida nenhuma, impôs uma banda desenhada no Brasil. O Brasil funcionava só com bandas desenhadas americanas e hoje existe uma banda desenhada brasileira. 0 Cortez, como estava a dizer, criou uma banda desenhada brasileira diferente na composição, no traço e na mancha.

O Garcês é um rapaz com talento (sem dúvida que o é). Não deve ter tido a sua oportunidade a sério e não quis procurá-la fora. O desenho do Garcês é um bocado rígido, mas isso representa, de certa maneira, a sua maneira de ser. O Garcês é rígido até na sua maneira de falar. Sou um grande amigo dele, mas não é por amizade que o digo. Mas enquanto eu e o Eduardo Teixeira Coelho encontrámos outros caminhos lá fora, houve um naipe de dois ou três rapazes que ficaram aqui que encontraram outros caminhos.

O Garcês foi para a meteorologia. Não sei se ainda faz a mesma coisa. O Carlos Alberto é um ilustrador extraordinário. Dedicou-se à pintura, mas continua a fazer ilustrações a cores, capas, etc. O Carlos Alberto tinha todas as qualidades...Lembro-me do 'Mouzinho' que ele publicou no 'Mundo de Aventuras'. Pareceu-me um excelente ilustrador de B.D. com uma técnica de pincel que ele dominava com mestria. ,

 

F.: Nós vamos publicar alguns estudos do Sax, bem como algumas ilustrações sem texto. Gostávamos, portanto, que nos falasses um pouco deste herói.

 

P.: Este herói, que levou seis meses a conceber, de certa maneira e por razões várias, pus de parte, não para o abandonar, mas como o Napoleão dizia, se não estou em erro, 'por vezes é preciso recuar para atacar melhor'.

Eu achei que seria essa a melhor coisa a fazer, visto que nessa altura em Paris havia dois personagens filibusteiros e os editores que estavam a publicar esses personagens não comportavam a publicação de mais um. Dá-se o facto de me ter sido proposto publicá-lo num jornal diário em tiras diárias.

 

F.: Já sei que fazes romance, pintura e banda desenhada. Qual destas actividades desenvolves mais? Em qual delas te consideras mais prof issional?

 

P.: Essa pergunta é quase uma armadilha, é quase uma rasteira. Eu tenho o mesmo interesse por todas as actividades, embora a certa altura eu tenha dito 'não' à banda desenhada. Mas isso aconteceu com vários artistas, inclusive de outros ramos. Eu tenho a impressão que acontece num momento de saturação, quando se trabalha demais. E esse momento de saturação chegou, sem dúvida, com o excesso de trabalho, justamente com o 'Yataka' em que eu trabalhava dezoito horas por dia. E adoeci por causa do 'Yataka'.

Fiquei desiludido com o editor, o que me feriu e me levou justamente a parar durante um tempo, mas no meu espírito sempre continuou a ideia de voltar à banda desenhada mas com moldes completamente díferentes, quero dizer, eu próprio fazer as minhas próprias edições.

 

F.: Como é que se forma um bom desenhador?

 

P.: Se realmente um indivíduo quer estudar para ser desenhador de B. D. ele tem de considerar que esse estudo é tão importante como se ele fosse formar-se em Económicas, em Direito ou em qualquer outra formatura ou especialização Ele tem de pensar que tem de ter, pelo menos, quatro ou cinco anos de estudo até se preparar como deve ser, e que a família tem que abdicar das 'massas' que poderia utilizar noutra coisa qualquer. Há o desenhador bom e o talento extremo, um e outro governam-se e há sempre a porta aberta em qualquer editor para um bom trabalho, (em Portugal, com o pagamento mais baixo que lá fora). O que não há duvida é que é preciso muito trabalho. Por exemplo, Lizt costumava pôr os dedos dentro de água depois de horas e horas de tocar piano, porque tinha os dedos a ferver. Com o Paganini acontecia o mesmo. Depois de horas e horas de trabalho não sentia a cabeça dos dedos, à procura das notas. Portanto, é isso, e vou dar-te como exemplo uma resposta de Paganini. Quando lhe perguntaram: 'Você é um génio ?', ele respondeu:

'Um génio não, sou noventa por cento de trabalho e dez por cento de inspiração'.

 

F.: O que te levou a fazer a 'Casa da Azenha' ?

 

P.: Eu fiz a 'Casa da Azenha' não a pensar no leitor, para criar um choque, mas fi-la para mim.



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